Medos


Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade."

Clarice Lispector - A Paixão Segundo GH
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"De repente as coisas não precisam mais fazer sen­tido.
Satisfaço-me em ser.
Tu és? Tenho certeza que sim.
O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência.
De certo tudo deve estar sendo o que é."


(Clarice Lispector - Um Sopro de Vida)
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6 comentários:

Fatima disse...

Engraçado,
de uns tempos pra cá ando lendo tanto a Clarice.
Tudo que ela escreve faz tanto sentido pra mim.
Bjs.

Sonia Schmorantz disse...

Clarice Lispector tinha um dom especial para descrever esta nossa natureza humana...
beijos

Sylvio de Alencar. disse...

A única saída é comportar-se o mais próximo possível de Quem Você É, já que Ser é mais difícil.
Se não somos nós em nossa totalidade como viver a vida dessa forma: totalmente sem subterfúgios e ilusões?

Pensei num primeiro momento que o texto era seu. Este tipo de dúvidas tá rolando muito. Talvez por causa disso, por ter chegado a hora, um livro me caiu nas mãos.

ligado em imagens disse...

ufa, respira mudou a foto!!
bjos

Andrea disse...

Oi Flor!

Pra mim também, ´faz sentido, porque na verdade tomamos muito do que ela escreve pra nós, o que não é tão dificil acontecer com quase todos...sentimentos são isso...medos, erros, acertos, paixões, ilusões, a vida é assim né?

Bjo!

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Sonia

Taí, você resumiu em poucas palavras, entender a natureza humana é para poucos, ela...era uma destas pessoas...:)

Bjo!
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Sylvio,

Pois é, nem sempre o que você realmente é as pessoas aceitam, na verdade é como a Walkyria, que você mesmo leu lá escreveu em uma frase no post dela ontem sobre Miguelitos:
"Existe a pessoa que eu sou, a pessoa que penso que sou, a pessoa que quero ser, a pessoa que os outros veem"...

Resumindo,
sou sempre a mesma, sempre independente do que enxergam!

O texto não é meu, mas tem muita coisa que me identifico aí, sobre o livro cair em suas mãos, aproveite, ele é maravilhoso e esta é apenas uma pequenina parte do conteúdo...muito bom mesmo, como tudo que Clarice escreve...

:)

Andrea disse...

Oi Ligado..

Linda né?..leva a flor pra vc...:)

Bjo!

Dia 02 tem festa?:)